You are currently browsing the tag archive for the ‘contos’ tag.

Era dos sorrisos que Clara gostava, sempre soube. Ainda que os dentes não lhe despertassem paixões… O modo como as bocas curvavam, as pequenas tortuosidades que diferenciam umas das outras. Pequenos traços para entender grandes coisas. Ela não sabia dizer se deveria ou não associar este gosto por sorrisos a seu hábito de preferir ficar calada…

Sempre resmungava, mas não dizia nada. Nada. Era tão normal que algumas vezes achava ter dito algo, mas nunca disse. Difícil para os amigos… Mais difícil ainda para ela. Pois acostumou se a não falar, empregara tanta rispidez consigo mesma neste processo, que não conseguia falar quando precisava… Nem para pedir socorro.

Era o nariz. Que desde pequeno lhe pesava na cara. Que custou as vergonhas da infância, trouxe verdades na adolescência, gerou medos na sua migração, mas agora, na vida quase adulta, refletia ela.

Ele jamais entenderia, sequer poderia admirá-lo, contudo era capaz de exprimir uma ínfima gratidão sobre essa parte de si que sempre o indignara. Porque ela, ah! Ela. E ela gostava era do nariz.

Nariz adunco, grande, pontudo e pendurado. Sempre chamou mais atenção do que o sorriso mesmo.

Todas as juras de amor que fez queria jogar fora. Mandar embora do papel e da memória. Queria saber que não disse uma só injúria melosa que é hoje dolosa fúria.Queria ter usado só sorrisos. Sorrisos pra memória, cujos registros o tempo danifica e leva embora (dos mais afortunados).

Assim seria só saudade do que talvez não tivesse sido. Seria o relato imaginário-bucólico- lendário. Sem o tormento das palavras, infinitas, malditas, fortuitas de um afã leviano! Queria que o amor não fosse planta de jardim, nem palavra ou fita de cetim. E que o fim fosse o ponto final real e não apenas um sinal.

Antes do desassossego de estar rastejando, ainda que momentaneamente, por alguém que lhe queria duvidosamente. Viveu o sossego. A simplicidade de ser sozinho. A dificuldade de estar sozinho. A felicidade de ser ele mesmo. Uma paz perturbada apenas por seus fantasmas…

As cervejas prazerosas de outrora, as vezes passavam a embolar em sua garganta, eram suas cicatrizes que lhe pulsavam. Seriam as lembranças infindas? Nada, nem ninguém, seria capaz de ao menos borrar essas assombrações? Não queria esquecer nada, pois sofrimento gera conhecimento, mas também estava cansado de lembrar.

Apaixonado voltou a rastejar como um idiota. Maquiavélico sofria de estratagemas para não perder se novamente rumo ao fundo do poço. Coletou conselhos, colecionou tampinhas e jogou os dados! Estava mais uma vez no jogo do amor, mas desta vez tinha mapa, bússola e memória. Talvez memória demais…

Porque as pessoas eram incapazes de lhe dizer verdades… E capazes de lhe empurrar mentiras? Repensou seu comportamento ao longo da vida. Sorriu sentindo se integra com suas crenças, com suas mudanças, com sua capacidade de reconhecer os próprios erros em auto análise. Até mesmo com sua problemática com as pessoas… Ainda em silêncio abriu o livro para desanuviar em prol de dormir, duas coisas nas quais nunca fora boa… Clara era mesmo uma garratuja reta…

Numa roda de gente de vinte e poucos um senhor chega e começa a falar de casamento. As histórias vem a tona… Uma era separada e tinha um filho, outro era casado e traia a esposa no trem, outra matou o marido, pagou o preço e estava feliz. Ela ali, encostada no balcão sem dizer nada. Até que o senhor se vira em sua direção e dispara: -Isto não é assunto para ti mocinha. Ouvir estas desencaminhadas…

- Olha, já me juntei, separei e deveria era ter matado o lazarento! – disse de supetão com carinho e maldade, entre a seriedade e a brincadeira. Mentira sincera como aprendera com ele, com o ex. E neste caso para firmar se dentro do bando. Sua turma de trabalho que mostrou diversas reações. – Meu deus! Elas hoje em dia já começam bebes. – Resmungou o velho. Tiro pela culatra! Continuavam achando que ela tinha 19 anos…

Ao som da Kiss eles perderam se no emaranhado trânsito das ruas redondas e desordenadas. Um simples choppinho no meio da semana transformou se numa comédia romântica cinematográfica. No bar as situações ficaram absurdamente desconcertantes. Ambos lordes ingleses gastando a boa educação. Ela sugeriu um Mojito que ele não pôde aceitar por conta da baixa taxa de açucar no sangue. Muitos assuntos pessoais familiares para um encontro blasé a sós. Apesar dos embaraços o happy hour acabou apenas pela manhã.

Blog Action Day

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.