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Era dos sorrisos que Clara gostava, sempre soube. Ainda que os dentes não lhe despertassem paixões… O modo como as bocas curvavam, as pequenas tortuosidades que diferenciam umas das outras. Pequenos traços para entender grandes coisas. Ela não sabia dizer se deveria ou não associar este gosto por sorrisos a seu hábito de preferir ficar calada…

Sempre resmungava, mas não dizia nada. Nada. Era tão normal que algumas vezes achava ter dito algo, mas nunca disse. Difícil para os amigos… Mais difícil ainda para ela. Pois acostumou se a não falar, empregara tanta rispidez consigo mesma neste processo, que não conseguia falar quando precisava… Nem para pedir socorro.

Todas as juras de amor que fez queria jogar fora. Mandar embora do papel e da memória. Queria saber que não disse uma só injúria melosa que é hoje dolosa fúria.Queria ter usado só sorrisos. Sorrisos pra memória, cujos registros o tempo danifica e leva embora (dos mais afortunados).

Assim seria só saudade do que talvez não tivesse sido. Seria o relato imaginário-bucólico- lendário. Sem o tormento das palavras, infinitas, malditas, fortuitas de um afã leviano! Queria que o amor não fosse planta de jardim, nem palavra ou fita de cetim. E que o fim fosse o ponto final real e não apenas um sinal.

Porque as pessoas eram incapazes de lhe dizer verdades… E capazes de lhe empurrar mentiras? Repensou seu comportamento ao longo da vida. Sorriu sentindo se integra com suas crenças, com suas mudanças, com sua capacidade de reconhecer os próprios erros em auto análise. Até mesmo com sua problemática com as pessoas… Ainda em silêncio abriu o livro para desanuviar em prol de dormir, duas coisas nas quais nunca fora boa… Clara era mesmo uma garratuja reta…

Saboreando a reconstrução do seu eu  desconstruído, Clara fumava um cigarro na soleira da porta. Divagava contra si mesma argumentando psicoticamente para saber quais sonhos salvar. Depois que iniciara este processo de juntar as fatias  do bolo começou a descobrir aos poucos onde deixara suas lascas…

- Queria ser a menina que não sou! – Gritou ela sentada no pufe do canto da sala. As meninas olharam na sua direção tão espantadas que optaram por não argumentar… Uma situação muito estranha de modo geral. Clara sempre foi a mais decidida delas, cheia de atitudes, dona dos sonhos realistas… Aquela que levanta a mão para a vivência completa da experiência e ri depois da queda.

As meninas nunca perderiam uma oportunidade de argumentar com ela, porque era um verdadeiro prazer poder ajudar a única que não precisava de ajuda nunca… Contudo, a frase foi tão seca, sonora e finita que tudo que aconteceu na sequência foi em direções avessas as costumeiras.

Clara sempre pensara estar feliz com tudo que havia conseguido, mesmo nos percalços de seus caminhos tortos, mas ao ler a frase estampada na janela, na segunda-feira a noite,  sentiu uma grande onda de descontrução de si… Por que não podia ser ela aquela menina?

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