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Sentou no sofá, jogou na sua cara que havia feito o que ele não fez, com aquela cara de quem sempre conserta tudo e os olhos molhados que levam todos ao céu e ao inferno. Ele resmungou o primeiro comentário sarcástico que lhe veio, como sempre fora, como sempre seria… Esculhambações primeiro, elogios, agradecimentos e rosas depois.

Foi para o quarto com seus sorrisos, o deixara no sofá com seus pesares. Quando ele procurou não estava mais lá. Por quê? Por que teria ela feito uma coisa tão vulgar? Sim, ela deletara. Ok, ele sabia porque, uma pena.

Perguntou, na sequencia, se havia deletado por completo… Recebeu um mísero sim. Parabenizou a e ela agradeceu… Quis saber se era o fim e ela disse: – “Pode ser apenas um nunca mais lera minhas cartas de amor.”

Uma romântica, a safada, gostava era de frios na barriga, de tapas na cara, de enjôos e vertigens. Enquanto ele achava que era um bad boy, o rei dos maus tratos, cheio de panca, ela vinha, disfarçada de romance, pisar lhe com saltos altos e puxar lhe os últimos cabelos.

Todas as juras de amor que fez queria jogar fora. Mandar embora do papel e da memória. Queria saber que não disse uma só injúria melosa que é hoje dolosa fúria.Queria ter usado só sorrisos. Sorrisos pra memória, cujos registros o tempo danifica e leva embora (dos mais afortunados).

Assim seria só saudade do que talvez não tivesse sido. Seria o relato imaginário-bucólico- lendário. Sem o tormento das palavras, infinitas, malditas, fortuitas de um afã leviano! Queria que o amor não fosse planta de jardim, nem palavra ou fita de cetim. E que o fim fosse o ponto final real e não apenas um sinal.

- Tragam o convidado! Ouviu alguém ordenar e entrou, meio perdido, meio curioso. Achou todos muito afáveis com seus abraços e sorrisos. Esparramou se conforme o combinado. Não notou em nenhum momento os perigos que o cercavam, os olhares por tras dos olhares seco-embriagantes.

Estava feliz, tão extasiado que não notou o primeiro golpe. Quando começou a sentir dor seus olhos cheios d’agua viram o sangue escorrendo pelo chão. Não era o dele, mas sentiu o estômago contorcer, com o sentimento de traição… Estilhaçou sua alma em mil pedaços. Ofereceu se para não levantar a espada… Em honra ao inimigo desonrado.

Haveria uma escolha?

Amava cada vez mais, esquecia cada vez menos;

amava cada vez menos, lembrava cada vez mais.

Amava cada vez menos, esquecia cada vez menos;

amava cada vez mais, lembrava cada vez mais.

Amava cada vez mais, esquecia de lembrar;

amava cada vez menos, lembrava de esquecer.

Amava cada vez menos, esquecia de esquecer;

amava cada vez mais, lembrava de lembrar.

Um frio na barriga… Haveria algo que pudesse fazer por ela? Telma olhava para a televisão perdida em flashes oníricos da infância delas. Queria poder ser mais, ir além, estar lá. Queria ser alguém para ela se orgulhar. Não dava para voltar atrás de decisões estúpidas… Mas seria possível mostrar a alguém os sentimentos verdadeiros que sempre estiveram ali?

Milena estava esmagada. Pressão pura, como  o torque de uma mordida de crocodilo sobre si. Não sabe para que lado da rua olha primeiro, nem para que lado corre, por fim pára. Olha em vão para o movimento. E segue o rumo… Nada demais, nada além, nada diferente, nada mudaria. Apenas mais um papel que se aglomeraria na gaveta de documentos.

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